A câmara obscura



Todos os dias ando sem rumo até uma câmara obscura, cuja parede espessa é pintada com meu sangue. 
Há uma mesa, uma adaga. Há você em um canto. Há uma pessoa. Há um casal.
Mas não, não somos nós. Nós. E o pensamento ecoou naquele lugar completamente psicótico.
Ela o tocou, eu sangrei.
Ela o beijou, a adaga veio em minha direção.
Eu olhava e adaga ia me mutilando a cada segundo.
Uma lágrima sangrenta. Duas, três, quatro. Turbulência de pensamentos.
Meu sangue, por meu corpo ia escorrendo. Pelo chão ia se espalhando.  Lentamente.
Uma poça de sangue se formou do lado de seu pé. Então ele me olhou.  Sorriu.
Pegou um objeto de seu bolso que distingui apesar das lágrimas.
Era um pincel.
Ele molhou o pincel com meu sangue e começou a escrever em uma das paredes.
Você é o verme mais desprezível do mundo, acha mesmo que alguém se importa com você?
Você não é nada. A cada pincelada a cara dele se enchia com um sorriso. E dava gargalhadas.
Eu te usei,  por que você era tão inocente e ingênua. Tadinha. Gosta de mim.  Me olhou com seu olhar paranóico seguido logo adiante por um passo em minha frente.
Olhou-me, e tocou meu rosto mutilado. Continuava em pé, atordoada pela dor. Sentindo a adaga perfurar-me de forma infrene. Ele segurou meu rosto, e me fez olhar em seus olhos. Sentia a dor me queimar, enquanto seus olhos verdes me fitavam e me reduziam a pó. E a dor ia aumentando.
Ele tombou um pouco a cabeça para o lado, ainda me olhando, dando seus sorrisos hostis.
Ele pegou a adaga, e me perfurou.
Mais uma vez. E mais outra. Não tinha fim.
Espichava sangue para todos os lados.
Fechei os olhos pedindo súplica para que aquele pesadelo acabasse.
Mas não acabou, pois quando abri os olhos, em suas mãos estava meu coração. Ele olhou pro lado e chamou a megera, ela sorriu pra mim, segurou meu coração, e então ele o perfurou. Muitas vezes.  A dor era angustiante. Podia ouvir meu coração pedindo socorro.
Enquanto as risadas ecoavam naquela sessão suicida.
Sangue saia do meu nariz, e pela minha boca.
E minhas lágrimas não acabavam. E a dor não acabava.
Cai no chão.
Ele me levantou.
Eles se beijaram.
E meu coração estava em minha mão, e eu o estava perfurando-o, enquanto o sangue espirrava em minha cara.
Eu não sabia. És meu suicídio. És meu suicídio em câmera lenta. 
Mas eu não sabia.
Amando-te suicidava-me.
Talvez tivesse criado o vicio de me autodestruir.
Talvez.
Então meu coração parou. E o silêncio permaneceu.
O vazio me preencheu.
Eu tombei pro lado, indo parar no chão.
Sem vida.
Enquanto eles dançavam em perfeita harmonia em meu sangue.

E então eles foram embora, deixando-me sozinha.
- Obrigado pela diversão.  Falou.
E tudo ficou frio.
E tudo ficou negro como breu.
E eu morri.
De novo.
E amanhã vai ser a mesma coisa.

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