A biblioteca da memória



Eu gosto do jeito que ela fuma seus cigarros. Assim, tão doce, tão meiga.
Gosto do jeito que o cabelo dela voa quando o vento passa.
Gosto do jeito que nossos lábios ficam juntos. Selados.
Eu gosto do jeito que ela me ama. Sutil, terno e doce. Fácil como respirar.
Eu gosto do jeito que meus braços ficam em torno dela, como se eu fosse moldada para se encaixar perfeitamente na mesma.
Eu gosto do jeito que ela pede seu café.
Eu gosto de sentar ao seu lado, pegar tua mão.
Cortejar-te enquanto tomamos chá gelado na varanda.
Eu gosto do jeito que corre pelos campos.
Eu gosto do jeito que teu corpo caí no lago.
Eu gosto dos carinhos. Eu gosto.
Eu gosto quando ela me pede flores.
Eu gosto quando ela me pede amor, mesmo já tendo tudo de mim.
Eu gosto do gosto do amor.
De amar além do amor.
Das páginas inacabáveis do livro surrado.
Das aventuras, fantasias. Desventuras em série.
Como duas psicóticas por amor.
Conhecemos-nos na reabilitação.
Mas não conseguimos.
Fugimos.
Corremos.
Sem rumo.
Pelos campos com margaridas, orquídeas e girrasóis.
No pôr-do-sol, no crepúsculo, ou a meia- noite, sempre amar.
Corremos da dor.
Pra viver um amor.
Eu amo quando me deixa ajoelhar e te pedir a mão.
Eu gosto de teu corpo enroscado no meu.
Eu gosto da cama com lençóis bagunçados. Com teu cheiro.
Eu gosto até mesmo dos defeitos.
Eu gosto até das qualidades.
Eu gosto do seu cabelo amarelo-rosa-preto.
Eu gosto da textura da sua pele.
Eu gosto da maciez do teu rosto.
Eu gosto de como ficamos juntas.

(...)
- Eu lhe dei um coração.
- Eu lhe dei um destino.
- Você é minha ou não?
- Eu sou sua sim. Você é minha ou não?
- Sou sim.
(Silêncio)
- Gosto de constelações.
- Eu danço ballet.
- Gosto de pirâmides e coisas misteriosas.
- Até parece que vai ser astronauta. Astronauta diz pra mim cadê você, bailarina não consegue mais viver.
- Estou aqui hoje. Mas a terra é inconstante. Gira, muda. Me deixe sempre aqui.
(Tosse)
- Cigarro..?!
- Não.
- É.
(Silêncio)
- Hoje vai nevar.
- Estou com frio.
- Eu esquento-a. Entreguei meu casaco de porcelana para ela. Cabeu- lhe perfeitamente.
(Silêncio)
- Te escrevi uma carta ontem.
- Eu dancei e pensei em você.
- Eu sempre penso em você!
- Eu sempre penso em nós!
(Silêncio)
- Meu coração tem dobradiças.
- Abriu pra mim?
- Abriu pra você.
(Silêncio)
- Meu coração tem teias. Icebergs, fogo, sangue, batimentos.. e o que mais tem é você. Você é meu órgão vital.
- Meu coração tem poços de angústia e dor. Mas no meio da tortura você brotou como uma flor. E então o sol abriu no vale da morte.
(Silêncio)
- Sinto-me... Isso é mesmo real?
- Não sei se é real. Mas levaremos.
- Sim.
- Eu pensei em você.
- Eu pensei em você.
Toquei teu rosto com a palma da minha mão.
- Você não sabe de mim!
- Só eu sei de você!
(Silêncio)
- Quanto tempo dura?

- Depende do quê.
- Isso. Você pra mim, eu pra você.
- O que for para ser, será. Mas espero ter sempre você.
(Silêncio)
- Quero te cantar uma música, e você não ouvir. Quero te mandar uma carta. Quero amor, quero amar. Quero você e eu entrelaçadas. Na cama, rente ao cobertor.
- Quero te amar, como se não houvesse amanhã. Como se fosse o último dia. Quero você, aqui, agora, até o sol acabar.
(Silêncio)
- Pode machucar.
- Sim..
- Então por que ainda assim, me ama?
- Por você vale o risco.
(Silêncio)
- Quero te ver.
- Quero te ver.
(Silêncio)
- Quero te sentir.
- Quero senti-la.
(Silêncio)
- Quero teu beijo.
- Quero teus braços me embalando.
(Silêncio)
- Quero uma flor.
- Vou buscar.
- Quero teu amor.
- Já tem.
- Quero que quebre a distância.
- Com os punhos quebrarei.
(Silêncio)
- Quero ver como é.
- Me diga.. o quê?
- Ter alguém. E poder abraçar, usar pronome possessivo.
- Pois, então. Eu estou aqui. Irei te mostrar... com o tempo.
- Eu tenho medo. O perfeito sempre acaba em tragédia.
- Não tenha medo.
- Pois eu tenho sim. Tenho um medo danado de te perder.
- Não deixarei. Não irei escapar de tuas mãos.
- Eu não irei solta-las.
(Silêncio)
- Quero lago.
- Quero flores.
- Quero campo.
- Quero cigarros.
- Quero você.
- Quero você.
- Sempre.
- Eternamente.
(Silêncio)
- Por você conjugo até os verbos.
- Me diga então.. Quais são?
- Amar..
‘’Eu amo
Tu amas
Ele ama
Nós amamos
Vós amais
Eles amam’’
Amar. Remar contra a maré;re-amar.
- Pois bem, também quero lhe dizer um..
‘’ Eu quero
Tu queres
Ele quer
Nós queremos
Vós quereis
Eles querem’’
Em suma, todos querem o nosso amor. Teu coração e o meu.
(Silêncio)
- Me dê suas mãos.
- Está fria.
- Não me importo. Há muito tempo. Esse frio que está, nada se compara com o que já esteve dentro de mim.
- Vou descongelá-la.
- Promete?
- Com a vida que te dei.
(Silêncio)
- Talvez...
- Sim...?
- Se eu não voltar, você irá aparecer?
- Sim.
(Silêncio)
- Então irei embora.
- Não vá.
- Tenho que ir. Já adiei muito esse adeus.
- Não quero dizer adeus.
- Nem eu.
- Não vá.
- Nunca vou deixá-la.

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