Teu coração Bailarina



(...)  Guardei está caixa por tanto tempo, que não me lembrava mais...
 Era uma tarde de dezembro, o chão era coberto pela neve espessa, o sol estava a meio-ponto – já ia sair, sua luz iria abandonar o céu.
Na minha mão, se encontrava uma caixa de mármore preta, ela estava escondida, a cinco palmos da terra que eu acabara de desenterrar.
Lembro-me bem, muito bem, o que estava lá. Lá estavam toda a minha fragilidade, meus medos e angústias, minhas dores e amores.
A chave estava pendurada no cadeado. Minha mão foi até o mesmo, girando a chave duas vezes. Com o mesmo movimento que fizera anteriormente, abri a tampa daquela caixa tão obscura – tão ignota.
Lá estava feito iceberg, lá estava meu coração. Meio mutilado, o sangue havia se tornado preto. Estava sem batimentos, congelado.
Ouvi passos atrás de mim. Não olhei, nem se quer me importei.
Os passos ficavam mais altos, mais perto. E então, num pestanejar de olhos, o coração já morto e adoecido bateu. Redobrou, multiplicou seus sinais vitais.
Lá estava atrás de mim... Com todo o seu esplendor. A doce bailarina da morte.
Logo que me virei, seus olhos negros encontraram os meus, fazendo-os derreter.
Lá estava à destinatária de todo o meu amor. Imenso, imortal.
Peguei meu coração, que ainda estava em minhas mãos, que estava sem dúvida alguma – feliz, esplendido, estupefato – de bater novamente – de reencontrá-la.
Entreguei-o, em suas mãos brancas feito a neve que permeava no chão. Estremeci assim que toquei em sua pele gélida.
- Isso é seu, sempre foi. Eu não posso ir – nem alcançar – as estrelas, mas as estrelas podem vir a mim. Guarde-o bem.
Ela não falava, nem ao menos se mexia. E então, como um sussurro, as palavras fluíram ternamente de seus lábios vermelhos repletos de sangue mortal.
- Não há necessidade, oh vida que me és fiel. Eu o quero batendo dentro de você. Batendo freneticamente por mim.
Assim que falou, pegou uma de minhas mãos.  E andamos lentamente pela neve enquanto o crepúsculo dominava o céu.

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