Meio-termo



Fitávamos o crepúsculo, numa noite-tarde na véspera de Natal. Ainda tinha meus mesmos desejos, aquela era minha realidade, e aprendi a conviver com ela. Estava me regenerando com o tempo, não havia dúvidas, mas a dor nunca iria passar.
Lá estava sua mulher, vindo em nossa direção. Ela era mais bonita que eu, não tinha como negar.
Então, se entreolharam com ternura.
- Estava a sua espera lá dentro. Como não veio, então resolvi procurá-lo. Sorriu com meiguice. Olhou pra mim.
Senti um desconforto. Não gostava de olhar para ela.
- Olá, Eli querida. Como estás? Perguntou.
- Oh. Ótima. Um pouco embriagada, admito. Dei uma meia-risada. Essa bebida é ótima. Não ficava assim, desde os tempos de adolescência. Lembra-se, Oskar? Dirigi meu olhar a ele.
Ele estava um tanto absorto. Conhecia aquela expressão. Conhecia-o com a palma de minhas mãos. Mais respondeu quando Amanda chamou sua atenção pela segunda vez.
- Pode repetir, por favor? Falou.
- Lembra-se de quando éramos mais jovens? Das nossas bebedeiras? Sorri ao lembrar. Parecia que já havia passado séculos, e não anos. Era uma era mais feliz. Pelo o menos pra mim.
- Mais é claro que lembro. Éramos junkies. Deu um meio-sorriso.
-‘’ Junkies até a morte’’. Dei um grito. E depois caímos na gargalhada. Todos, sem exceção.
- Eli, nós- eu e Oskar- vamos lá pra dentro. Se quiser nos acompanhar.
- Não, obrigada. Estou bem aqui.
- Bom, então até mais. Ela pegou sua mão, e o conduziu a casa.
Observei, eles indo até lá. Depois voltei meus olhos ao céu, e logo em seguida a praia.
Tudo que eu ouvia agora era o barulho do vento. E as ondas. Sentia cheiro de maresia. Tirei meu salto, e caminhei para a areia, cambaleando. Sentei na mesma.
Coloquei minha mão no bolso do meu casaco, e peguei meu maço de cigarros. Tirei um, coloquei-o na minha boca e depois retornei a colocá-lo dentro do casaco. Peguei o isqueiro, o acendi, e dei algumas baforadas.

Estava sozinha, eu – a solidão, um copo de bebida, e meu cigarro- tão só. Era duro acreditar que sempre seria assim. Nunca iria ter um final feliz pra mim.
Falaram que o tempo o traria pra mim, esperei, esperei, e esperei. Sofri de forma infrene. Nunca dei atenção para nenhum outro. Sempre fui eu, e a solidão. E ele era minha utopia mais sincera e verdadeira. Digo utopia, pois nunca o tive, sempre foi um desejo ter-lhe.
Tomei um gole de minha bebida. Enquanto as teimosas lágrimas que tanto escondi de Oskar resolveram desabar.
O mundo é uma mentira. Eu sou uma mentira. O destino e a felicidade, ambos, são mentiras em que eu acreditei, por todos esses anos.
Se olhasse lá dentro de mim, veria a coisa mais terrível que se possa ver em uma mulher. O rancor, o vazio e a magoa. Os dilaceramentos. As labaredas de fogo queimando tudo que ainda insistia em residir vivo lá. E a dor, é claro. Mais poderia você, sentir a dor que sinto? Acho que não.
Convivi todos os dias com a minha própria morte. Te perdia de todas as formas – em minha mente- e logo me perdia, pois perdendo você eu perdia a mim mesma.
Levei meu cigarro à boca, dei uma tragada, depois bati a ponta do dedo no mesmo para tirar as cinzas, levei-o outra vez a minha boca, dando mais algumas tragadas, e deixei meu braço encostado na areia. Levei o copo de bebida a minha boca , mais uma vez. Senti-a rasgando minha garganta, e descendo até meu estomago deixando tudo em chamas.
Começou então a chover, bem fraco, e depois mais forte.
Olhei pra cima, e deixei a chuva cair em mim. As gotas se chuva se misturavam com minhas lágrimas, e quando por meus lábios desciam senti um gosto amargo.
Então corri até aonde começava o mar. Despi-me completamente, jogando minhas vestes em um lugar em que a maré não as levassem e entrei no mar. Andei até o meio, com o mar abaixo da minha clavícula, deixando assim meus seios a mostra. Fechei os olhos, e mergulhei.
Voltei à superfície sacudindo meu cabelo, e abri os olhos.
Ele me observava. Tristemente.
Sustentei teu olhar. Enquanto as lágrimas correriam mais fortes por minha face.
Era doloroso pra mim. Que ele me olhasse daquela forma.
Trazia-me lembranças. E as lembranças me matam.
Ficamos assim, paralisados, um olhando para o outro, sabendo que estávamos lembrando-se da mesma coisa.
Teu olhar me dizia tudo. E naquele momento, descobri.
Ele ainda me amava. Ele sempre me amou.
Depois de ficar completamente absorta, percebi que ele estava ao meu lado, e que fazia muito frio e o não estava mais no mar.
Ele me deu seu casaco, e eu coloquei minhas roupas que ainda estavam secas.
Eu ainda não havia parado de chorar, e gritava. Gritava.
Ele me abraçou sabendo de meu estado.

- Depois de todos esses anos, Oskar.., eu disse balbuciando. Você ainda tem tudo de mim.

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