Reliquías de uma mente insana





 Estávamos parados, em um penhasco. Ouvia o vento, ouvia as ondas baterem nas pedras. Sentia o cheiro de maresia. Estava frio. Eu me encolhi. Ele, sempre cavalheiro, me ofereceu teu casaco. Aceitei, e agradeci. E depois foquei meus olhos no nada. Pensava. Como era difícil controlar as palavras. Lutava contra cada palavra que quase saia dos meus lábios. Olhei pra ele, ele estava olhando a Lua, olhei-a também. O rosto dele transparecia dor. Torturamento. Não aguentava isso. Tratei de arrumar um assunto, mesmo insignificante.
- Olhe a lua, olhe. Que linda. Falei.
- Está mesmo. Respondeu ele, sem olhar.
Depois voltou seus olhos em mim, senti uma lágrima cair em minha face, quando aqueles olhos encontraram os meus.
- O que está pensando agora? Perguntou.
- Em tudo.
- Tudo?
- Sim, tudo.
- Tudo o que?
- Em nós. Como nossas vidas acabaram. Você pra um lado, e eu pra outro. Não queria que fosse assim.
- E quem queria?
- Você pensou em mim alguma vez nesse anos todos? - Ignorei a pergunta que ele havia feito.
- Se lhe dizer que não, iria insultar meu próprio coração.. Sim, pensei. Em todas as noites, lembrava de você. Do seu riso despreocupado quando estava comigo. Dos seus olhos calorosos me fitando a cada movimento. Lembrei de cada noite, cada beijo, cada intimidade..  Lembrei do teu corpo macio no meu. Dos seus lábios gelados. Do rubor de suas bochechas . Ah, que falta que sentia. Mais com o tempo, a dor foi ficando mais administrável. E eu estou aqui. E você? Pensou em mim?

Depois dessas palavras se fez um silêncio que ninguém ansiava em quebrar. Apenas olhares. Um olhava pro outro. Eu gesticulei para ele esperar. Pensativa. Escolhendo palavras.

- Sim. Pensei, muito. Em todos os minúsculos detalhes. Em cada segundo. Mais uma coisa me fazia seguir em frente, sabe. O simples fato que, em algum lugar, você estava respirando, vivo, seguro. E isso me fez continuar.
- Por que não voltou?
- Porque senti medo.
- Medo do que?
- Medo de você me rejeitar.
- Você era minha única esperança, como iria te rejeitar? Explique-me.
- Ela era melhor que eu.
- É isso então? Me deixou por causa dela?
- Sim.. - Abaixou a cabeça.
- Nunca tivemos nada. Nunca toquei nela.
- Eu tentei me prender nisso. Mais tudo na minha mente conspirava. Conspirava contra tudo o que eu me prendi. Conspirou na minha confiança por você. Me fez me questionar várias e várias vezes se você, realmente me amava.
- O que fizemos com nós? O que fizemos? Aquele sentimento imutável que sentíamos um pelo outro, se acabar assim.. Por causa de uma pessoa tão insignificante em nossas vidas?
- A insegurança. Demorou tanto para eu lhe ter. Eu esperei todo aquele tempo, e quando, finalmente, você me enxergou, tudo, e todos, queriam nos separar. Eu me senti insegura, com medo.. E então, fui embora. Fui sem olhar pra trás, com o único pensamento que você iria ser feliz com outra.
- Não sei por que pensou isso. Não teve um segundo em que não tenha sentido tua falta.
Eu não tinha palavras. Todas as lágrimas que eu tinha segurado, e lutado para não saírem, estavam ali em minha face, caindo. Sentia um imenso vazio.
Ele me olhava. Não estava melhor do que eu. Não chorava. Mas tinha sua expressão de tortura. Me senti pior quando o olhei. A dor dele, era a minha dor. Corri até ele, e o abracei. Ele me abraçou. Olhávamos um para o outro.
- Podemos tentar. Recomeçar.. Sem medo. Sem desconfianças. Só eu e você. Ninguém mais. Vamos fugir pra o lugar que você quiser..
Não me reprimi, o beijei. E ficamos ali. Se beijando a luz da Lua.

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