Flor-de-mel, doçura, e os tipos de amor.





Um lugar ensolarado na medida certa para nos amarmos. Que seja cheio de flores para colorir minha visão periférica, que seja flores, amor. Que seja. Que tenha cheiro de jasmim ou eucalipto.
Que me cubra com teus beijos, que me faça tua pele, que domingo seja doce, flores.
Que haja amor enquanto a dor se esconde entre as entranhas, vamos deixar a dor pr'um outro carnaval. Vamos dançar, vamos cantar Chico, recitar Neruda e Florbela, escrever um conto qualquer. Mãos entrelaçadas, nossa sina é um do outro, eu sei.
Dividir o coração. Mas, completo. Uma troca. Vamos curar nossos corações e nossas amarguras e feridas do tempo com gestos singelos, e amor. Ah, o amor é fonte de cura.
Um gesto, incentivo cauteloso, que seja. Só que não haja dor por enquanto, é tudo que peço.
Nessa abundância de afeto, irei me afogar. Ah, que bom é quando é recíproco. Que bom sentir a ternura, dar e receber. Os olhos já não são mar, mas sim mel esverdeado como sempre foram. Sem lágrimas, sem pranto. Ah, e eu já estava me cansando de tanto pranto, de tanta lamúria. De tanta decepção. De tanta agonia, vazio.
Agora eu nem vejo o tempo. O tempo pouco importa. Não preciso mais olhar às horas atentamente esperando o fim; agora é o começo. O começo de uma vida melhor. Não feliz; ah, ainda não. Mas, uma vida sem dores contidas na alma, sem gritos de desespero na madrugada, sem mar, sem drama.  Lavei minha capa de remorsos.
Eu vivi toda uma vida de cardos, e ah, quanta dor eu senti. Quantas lágrimas chorei.  Quantas vezes quis por fim na vida. Minha vida era de cardos*, de urzes*. De insensatez.
Tive que sofrer uma vida inteira de loucura amplificada.
Agora eu tenho um carrinho, uma videira, um amor e muitos sorrisos para distribuir para o meu pequeno e para o mundo, para mostrar-lhes que a espera nunca é vã.  Plantei meu narciso-amarelo*, reguei-o por toda uma vida, e ele finalmente floresceu.
Ah, que meu domingo seja flores; tulipas*, orquídeas*, ninfeias*, matricária-cheirosa*, margaridas*, rosas marroquinas, roxas e vermelhas*.

Meu amor é indizível e indiviso. Indissolúvel. Abrasador. Intrínseco.
Adeus ao rosto inexpressivo diante do espelho; tristonho, infausto, abjeto. Hoje o mundo vai conhecer o sorriso, que foi tão contido, a alegria, na qual me abstive. Espera-me que hoje eu boto meu vestido florido, passo batom vermelho, arrumo meus vastos cabelos ruivos, pego minha bicicleta enfeitada de crisântemos, dafnes, inebriantes, junto com o meu novo amor; eu mesma. Desabrochei-me, saiu uma linda flor-de-mel de dentro do meu peito fatigado, e desde então comecei a me amar, para depois amar os outros.  Esse amor que é difícil de encontrar, mas não impossível. Nada é impossível para as flores.  Para você, para mim. Todos somos flores prestes a desabrochar, então se a vida não vai bem e suas folhas estão secas, saia de casa num dia de chuva para regá-las, e veja a si mesmo florescer.


 Glossário

·         Cardo: Misantropia
·         Urze: Solidão
·         Narciso-amarelo: Recomeços
·         Tulipa: Declaração de amor
·         Orquídea: Beleza refinada
·         Ninfeia: Pureza de coração
·         Matricária-cheirosa: Ternura
·         Margarida: Inocência
·         Rosa marroquina, roxa, vermelha: Confissão de amor, Encantamento, Amor.
·         Crisântemo: Verdade
·         Dafne: Gosto de você como você é
·         Flor de mel: Valor além da beleza

Nota: Recomendo dar uma olhada no Glossário durante a leitura. 

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