Doses homeopáticas




Todos os dias ela morre em doses homeopáticas,
engasga com a fumaça tóxica do vazio
e chora o Pacífico por se tornar um abismo
sem fundo.

Não é mais sobre amor, querido
é sobre a perda dos sentidos...
quando tudo o que você tem
é igual a nada.
(Pois tudo foi reduzido ao nada colossal)

Quando tudo
fica turvo e você não consegue identificar
tua própria dor. Quando os ossos
parecem não estar em seu devido lugar.

Quando a faca não corta o suficiente.
Quando os remédios não são fortes o bastante.
Quando o Sol não bate mais na janela e
a chuva não lava a alma.
Quando a cerejeira não é tão bonita.
Quando a Lua é só uma balão branco insignificante.

Quando a poesia se extingue de tanta dor.
E a estática teima em continuar
a retumbar continuadamente na mente
transformando tudo em uma rádio desconexa.

As flores já murcharam há um bom tempo
murcharam através do tempo, das estações
encobertas pela vontade de cair no abismo
do sono excessivo.

Até a alma, que era tão enfeitada
pela poesia foi-se.

Flores? Foi-se.
Amor? Foi-se.
Poesia? Foi-se.
(Pela foice)
Só sobrou a escuridão,
o meu suicídio em doses homeopáticas. 

A carne pútrida
se decompõe em doses
mas as cicatrizes ficam,
elas são imutáveis
elas tem vida própria.

Às vezes é difícil
conciliar o real e o irreal
pois tudo gira, como um redemoinho
(dentro)

Meu coração é um cinzeiro
que ninguém nunca limpou,
e que nunca vai ser limpo.
Ah, it's hard to get around the wind. 

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