Olhos cor de corvo



Olhos cor de corvo, embriagados, 
mais uma vez consomem 
o mel dos meus olhos frágeis e tristonhos 
enquanto as mentes inconsequentes giram no caos. 

Entre tantos, teus olhos 
cor de corvo 
Cabelos macios 
e personalidade ácida
e por dentro terna.  

Lábios cobertos de espinhos 
com gosto de vinho 
comprado na esquina 
de um botequim qualquer. 

Em meio a música 
meu coração nem bate mais 
e se bater, jogo aquele 
conhaque que está sobre a mesa goela abaixo. 

Prometi aos deuses 
que não lhe retribuiria 
com intensidade 
mas sei bem, intrinsecamente, 
não sou metade. 
Ou sou, ou não. 

A ruptura já era prevista 
desde o princípio. 
O precipício 
do princípio. 

Com um afeto tão puro 
abracei, mesmo sabendo 
que era predestinado 
o fim. 

Teus beijos e o abismo; 
A escuridão eterna do sentir. 
O nada escondeu minha ternura 
num de seus universos paralelos. 
Em outra dimensão. 

O coração nem pulsa ao ver 
o que antes era motivo de dançar alegremente 
rodopiar e poetizar 
sobre flores. 

Por isso dançava de braços dados 
com a inconstância e me deleitava 
com vários lábios alheios. E o seu... 
Era espinho que furava minh'alma

Linhas paralelas. 
Números ímpares. 
Fomos e seremos 
para sempre eternos estranhos. 

Sem sincronia 
um disco quebrado 
fadado a nunca mais tocar 
em nenhuma vitrola. 

Nossos corpos desencaixados; 
o magnetismo inverso. 
Suspiros de ódio 
e amor numa mesma oração. 

(Somos e para sempre 
seremos estranhos 
sem sincronia). 

Teus olhos cor de corvo, cheios de desdém, 
não são clorofila feito meu amor. 
Não floresce, é chão seco, campo árido 
do sertão que só traz dor. 

O suposto amor é deserto 
dentro do coração 
e teus olhos cor de corvo 
observam o decompor ao longe... 

Depois se distancia, sem direção, 
pra bem longe do meu aconchego 
e meu peito suspira sonolento 
o então recente desalento 
pelo abandono, rejeitando a rejeição. 

Pronuncio monólogos estridentes
sobre a solidão, e sobre meu peito
que de tanto partir,
estraçalhou.

O meu maço
é de dores
e teus olhos
são sombrios e dissimulados,
pretos feito um corvo.

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