A colisão de números ímpares



Pelo queixo escorria inconstância
e nas mãos a garrafa oscilava
e o vento não perdoou a brasa
da fogueira que em um cômodo crepitava.

E os lábios não foram gentis
depois de tanto desejo reprimido
silenciado e abafado
entre gritos internos.

Entre entulhos e fumaça,
roupas jogadas e um frio glacial
o barulho da ruptura
lá dentro se manifestou
devagarinho entre o movimento ritmado
de corpos colidindo...

Corpo, corpos, corpo.
Alma, almas, alma.
Um, dois, um.

E ainda sim, dois distantes
números ímpares que por acaso
se chocaram como meteoritos
numa madrugada em um chão frio,
chão esse que ficou manchado
por vestígios de toda uma vida
de afastamento e timidez.

Foi como se
pendurar
na beira de um abismo
e observar ir embora
o medo de se aproximar
do fundo.

Palavras incoerentes
entre sussurros
de dor.
Todas as reticências em um só momento. 

Mas, ainda sim, foi tão bonito
quando estava só ela-consigo
e percebeu a força que tinha
e que não precisava mais
da insegurança que tanto a prendeu
dentro de uma bolha.

Foi como renascer flor,
mas por si própria.
E não por ninguém.

As mentes vazias e embriagadas
Intenso de sua própria maneira e
caótico, assim como dois inconsequentes,
embriagados em uma noite qualquer. 

Os corpos se moviam em uma cena de crime
enquanto os olhos cor de corvo encaravam
as evidências e o corpo que vazava...

O menino dos olhos cor de corvo
naquela noite trágica
virou um torniquete para amenizar e preencheu
a distância com seu próprio sexo.

Os olhos eram combustão
o toque era colisão
e os corpos continuaram
dançando a dança impessoal
da casualidade em uma galáxia paralela.

Eram apenas átomos
se juntando e se afastando
e nada mais.
Estranhos que dançaram
tango com os corpos insanamente,
instintivamente, e ainda assim,
ternamente.

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