Desapego


Naquela noite
você fez meu corpo
de tela e pintou
minha barriga 
e a parede
com meu próprio sangue.

Você penetrou
a minha bolha
de medo, que antes, achei,
era impenetrável
e deixou ela escorrer por entre
minhas pernas.

Falamos
em língua de instintos
e usamos nossos corpos
para se comunicar.

A desarmonia
não existiu
pois éramos
dois animais famintos
e comíamos o coração de
qualquer conceito de posse e apego.

Não éramos
nada além
de dois corpos,
dois sexos,
desejos,
carne e osso.

Não éramos
nó. Pois precisa-se
de brandura pra embaraçar
e não tínhamos precisão
e nem pretensão de se enrolar.

Se for pra ser algo,
digamos assim:
fomos personificar
o desapego
num chão frio numa noite
de sábado enquanto
a fogueira queimava
e as mentes giravam. 

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