A rosa púrpura de novembro

I

Os prédios eram de uma arquitetura européia
carregados de uma arrogância
que embrulhava-lhe o estômago.
Aliás, os prédios eram como as pessoas...
as pessoas eram os prédios
frios, sem essência ou
qualquer outra coisa admirável.
Sinceramente,
nada importava ou tinha um mínimo de importância.
A apatia já tinha se apossado do espírito.
Tudo era extremamente maçante;
um tédio profundo e crônico.
Debruçada em uma das mesas de bilhar
que estava abarrotada de copos largados,
limões espremidos
e saquinhos de sal
pensou consigo mesma
o por que diabos estava lá
''Diabos! Que merda. Eu nunca sei''
com um copo de cerveja em mãos
e um cigarro pendendo entre os lábios
ela estava pronta para sumir
e se aventurar sozinha por qualquer lugar;
uma de suas caminhadas costumeiras
para fugir de algo, fugir da agonia.
Das eternas reticências, dos desconfortos,
de olhares furtivos e insinuantes.
Mesa um, mesa dois
as bolas de bilhar eram o globo ocular.
Que se chocavam de minuto
em minuto, um com outro.
Apreensão, medo irracional,
de se aproximar um metro
que seja.
Lá, coberto por fumaça
os olhos cínicos
os olhos em que um dia
foram labirintos
(Hoje são menos que nada)
O tom da aproximação foi roxo,
púrpura,
o tom da desconsideração
foi transparente,
cor das lágrimas
que continuaram caindo.
Segunda pele
feita de lágrimas.

II

O tom da nossa aproximação repentina foi púrpura. 

Estávamos encostados numa mesa de bilhar
e eu te direcionava olhares tímidos 
a cada minuto. 
Observava o seu estado de embriaguez
com o impulso de estar ali, no mesmo barco,
te acompanhar na amnésia.
Queria girar, queria girar, queria girar
como numa ciranda
e repousar sobre as suas clavículas 
que mais pareciam gaivotas
prestes a voar. 


III

O tom da nossa aproximação
foi tão rápido, púrpura,
que você esqueceu no dia seguinte.

Não deveria saber,
mas meus ossos tremiam
ao toque teu.

Queria mesmo é afundar em você,

ser pele, ser osso, ser carne.
Ser nós.

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