Je ne serai jamais comme Anna Karina

Adoecida lembrança,
peço pra que permaneça
pelo menos mais 
um cadim.

Ah, quanto saudosismo
pra quem nem merece
tanto apreço quanto
o que eu dediquei a ti.

Às vezes projeto teu rosto
com filme super-8
em cortinas tênues;
ora a saudade e o querer ver,
ora o ódio e orgulho que me impedem.

Engulo a saliva, quase engasgo,
quando me recordo
da caixinha de fósforos
que guardou nossos sonhos
de sair dessa cidade cinza.

(E foi pro lixo
assim como
a sua consideração por mim).

A parede do meu cérebro
que guarda as memórias,
tem negativos daquele dia
que sentamos na escadaria
da Catedral da Sé
até o dia do cara que colocou
uma dinamite na cabeça do século.

A gente virou um
acervo de filmes cubanos,
empoeirados, raridades
em meio a tanta
bosta hollywoodiana.

A gente tão par,
agora é tão ímpar.

Nunca serei sua Anna Karina,
a verdade é que eu sou uma versão
menos padronizada e pobre da Edie Sedgwick.

A gente tão par,
soltaram até fogos
mas agora a fagulha apagou
pois você preferiu me abandonar
e trair minha confiança por quem só lhe fez mal.

Vou matar a saudade afogada
naquele 5O|50 bem gelado.
Eu vou, eu vou.
E sei que nunca vai transbordar
porque o buraco que você
deixou em mim é incurável.

Adoecida lembrança,
logo sei que você irá desfalecer
e virar mais um cadáver que
eu irei carregar,
então fica mais um cadim
deixa eu chorar um bocado
por quem eu tanto amei
e que imperdoavelmente
me decepcionou.

Éramos uma estrela
que agora explodiu
em uma supernova.

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