''Kitty Litter''

Os resquícios de memória e o saudosismo da Praça Roosevelt naquele primeiro de novembro cheio de piruetas bruscas:

1. 
Teus olhos injetados de clorofila invadindo minh'alma na noite desfocada, podre. 
2. A luz amarelada iluminando teus traços. 
3. Teus lábios que se abriram como pétalas ao toque meu. A textura da tua pele, a doçura dos teus gestos. 
4. As flores improvisadas por uma mulher vestida de Chaplin. 
5. A nossa brincadeira de tecer o futuro um no outro no meio da praça. 
6. O padrão de cores do teu vestido florido.
7. As lágrimas que você enxugou. 

Minhas tristezas continuam sinceras, Kitty. Ainda choro as mesmas dores, o mar interno ainda, de vez em quando, transborda. Mas meus cabelos já não são ruivos como naquele dia. Meus lábios estão ressecados de tanto álcool ingerido, mas ainda continuam com o gosto de tabaco que você buscou na sua memória há muito tempo atrás. Meu coração já nem lembra mais do timbre da sua voz. Agora você não ama mais. Agora eu te amo ainda. Eu que tanto quero e você que não se lembra.

Agora não tem mais como voltar, e as memórias que eu tanto me apeguei estão, lentamente, desaparecendo. 
Que tristeza foi quando eu não achei mais nossa flor na minha caixa de lembranças. Você deve ter jogado a sua fora também. A minha não foi por querer, ela foi. Ela foi sem eu querer. 
Que tristeza, Kitty! Você foi embora e ainda lateja aqui dentro. A limitação de expressar meus sentimentos me impossibilita de contar o quanto a culpa me invade por não ter evitado sua partida. 
Pudera eu, ter percebido o quanto tuas intenções eram verdadeiras antes. 
Sinto falta do conforto que você me dava. Das tuas mãos entrelaçadas nas minhas. 
Está tudo desbotando, Kitty. Que tristeza! O amor está agonizando. Que tristeza! 
A tristeza de ter perdido a única pessoa que olhou nos meus olhos e compreendeu como é viver dentro desse corpo assimétrico com a alma toda mutilada. A única que entendeu as minhas palavras que formavam nó. A única que entendeu a fragilidade, a paranoia, a intensidade, as várias camadas, as oscilações. A única que me amou verdadeiramente. A culpa é minha por ter deixado você escorrer pelos dedos como aquele relógio de ''A Persistência da Memória''. Eu juro, eu tentei corresponder da forma mais terna possível, mas não foi o suficiente. 
As pessoas sempre vão embora.
Ninguém fica.
Ninguém nunca vai ficar. 
E isso me consome.
Isso também te consumia. 
We was loud like love, Kitty. Mas agora só ouço o silêncio. 
Agora o amor está quietinho no peito, pedindo aconchego. 
Agora você não ama mais. 
Que tristeza... 

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