''Never more''




O garoto da tatuagem do Edgar Allan Poe
deixou que eu me aconchegasse em seu peito em nosso
universo paralelo fechado por paredes pretas
cheias de suor humano, cabeças girando ao efeito do álcool.
Achava nosso caos tão atraente, enquanto descia aquelas escadas íngremes
tão destemida e poderosa. Mas ele sempre me estendia a mão quando eu precisava e
eu agarrava, admito que com um bocado de receio, apenas a ponta de seus dedos.
Então a fragilidade da menina interrompida ficava visível, as maças rosadas feito sangue. 
Bomba inconstante.
Sempre um passo a frente, um quase-beijo dado
as nossas almas em perfeita sincronia vacilante.
Um passo para trás.
Sempre os toques incertos, a dança descontínua,
o encontro com nossos heróis decadentes
ao cantar com o espírito de quem sabe as agruras
do sub-
mundo.

O garoto da tatuagem do Edgar Allan Poe me dissecou, tão delicadamente,
e viu que dentro eram só vermes. Mas, uma pequena parte, tão pequena
estava sendo reconstruída, limpa. E ele queria essa parte, ele queria todas as partes desconexas.
Os antagonismos que causavam minhas explosões. 
O 8 e o 80. A loucura desenfreada.
Queria que eu cedesse ao ardente desejo de completar todas as fases inacabadas
que, posteriormente, iriam me destruir por completo.
Ceder ao egoísmo. Ao ''eu'' odioso.
Ao ''eu'' arruinado. 
O garoto da tatuagem do Edgar Allan Poe deve achar minha dor 
algo para se admirar. Os meus tombos, poesia. 
Romantizando os meus vômitos existenciais, os meus gritos de socorro. 

Não sei bem ao certo o que esperava de mim,
encorajando o que nunca iria passar da nossa bolha super fantasiosa e fantástica
pois o único saldo possível seria a miséria de afeição. 
Aquele garoto da tatuagem do Edgar Allan Poe
talvez apenas queira encher o ego com alguém
que esteja vacilando, tão contraditória em suas certezas.
Ou talvez, só talvez...
Mas não me permito pensar em amor. 
Seria a única palavra que temeria ter de ouvir de seus lábios,
pois se fossem reais, ah, se fossem reais...

Ao homem da tatuagem do Edgar Allan Poe
que, talvez não se importando, segura 
um lado do meu corpo me puxando 
para um mundo feio, vazio e desprovido de cor.
Onde nada é real, onde tudo é de plástico. 
Onde tudo se esvai, tudo some. 
Seus desejos supérfluos foram os meus,
eu já fui, não quero mais. 
Não quero mais...
Mas por que em meu coração a incerteza pesa?

Tudo parece tão inconsistente, 
equivocado. 
Uma interrogação invertida. 
Parecia tão simples, não é. 
Parecia tão bom, mas rasga
pois ele nunca iria me dar
o que eu, depois de uma tortuosa caminhada
tampando buracos com outros amores, merecia. 
Mereço. 
A garota com a maior parte do coração, da atenção. 

Em meu ouvido ele dizia minha,
mas não sou. Sou apenas minha, 
e de mais ninguém. 
Musa, ele dizia.
Única, ele dizia. Dissimulado. 

Talvez eu ame o homem da tatuagem do Edgar Allan Poe,
e eu sei bem que não sou a única a causar tamanha confusão
mas lembro do corvo que comeu meus órgãos impiedosamente, 
e então, sabendo do peso da palavra,
eu digo: Nunca mais. 

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