A minha insônia tem devaneios com aquela noite de Maio

Sempre quando penso em você, me lembro daquela madrugada no nosso universo paralelo. Aquela noite de Maio que nunca mais irá se repetir, a noite que carrega o espectro do arrependimento. Minhas defesas estavam todas desarmadas e as cartas estavam todas expostas na mesa naquele grande jogo que eu nunca quis jogar. A indecisão tinha inclinado para o lado da aceitação dos meus reais e profundos sentimentos. 
A vontade de unir meus lábios aos seus era maior que qualquer racionalidade, qualquer moral socialmente aceita. O certo não era mais tão certo. Aliás, o que era certo fazer quando meu coração-vulcão entrava em erupção apenas com um olhar seu?
Naquela noite nós dançamos como nunca havíamos dançado, eu enlacei meus braços em seu pescoço e senti que nada mais importava. Lembro-me de como você me olhava e segurava meu rosto entre suas mãos e eu sentia todo o meu corpo explodir como bolhas de champagne. Ou quando eu cantei I've Got The World On A String no seu ouvido aconchegada em seu abraço. Dentro do caos do submundo e o caos das minhas emoções, você foi a única coisa que fez algum sentido, apesar de não fazer. Sempre foi uma eterna contradição. Mas o meu amor sempre foi tão puro e sincero e eu sei que você sentia quando nossos corpos se juntavam naquele abraço apertado. Só não sei se você sentiu o mesmo, e eu sempre me pergunto. Aliás, nos primórdios do sentimento foi você quem atiçou, quem encorajou. Eu juro, não foi coisa da minha cabeça, não pode ser. As suas atitudes e palavras sempre me disseram exatamente o contrário.
Naquela noite me lembro, em flashs cheio de luzes coloridas e música alta, de quando seus lábios pronunciaram o que eu sempre quis, o que eu nem esperava: o ''eu te amo''.
Me sinto tão tola por estar em tal situação e não conseguir me desvencilhar e olhar pro horizonte, olhar a nova cidade que habito e ter a alma que eu tenho, ou pelo menos tinha, ao olhar para o lado e não ouvir sua voz arrastada quando estava embriagado, ou ouvir seu suplicante chamado falando meu nome quando eu te ignorava. Ou até de dividir meus cigarros manchados de batom contigo.
O maior arrependimento, ah, até dói de lembrar, foi não ter demonstrado devidamente o quanto eu queria quando você me deu um breve beijo, quase que esbarrado, apressadamente. Eu sempre imagino o que teria acontecido naquela noite fatídica que criou mais um muro entre nós além da Muralha da China que sempre esteve lá, na espreita, apelando pra minha consciência, para a razão além do sentimento.
Naquela noite de Maio eu ainda não sabia, que posteriormente você iria se metamorfosear em algo parecido com aquele conceito clichê que vários poetas já escreveram sobre em noites estreladas; o de alma semelhante. Nesse texto tenho a completa lucidez que tudo parece muito redundante, pois é desse jeito que minhas emoções são. Um eterno caleidoscópio de imagens de filmes de estética expressionista. 

Que pena que a minha memória mais preciosa está oxidando, perdendo o brilho e a consistência devido as tantas noites que tentei esquecer, engolir a dor e vomitar todo o meu amor. Se danificou. 
Que triste, pois apesar de desbotada, ainda é a única coisa que eu sempre penso no meu mundo dos sonhos e utopias. Na realidade é isso que se pode ver e nunca vou saber o que realmente você queria dizer.

Eu sei que deveria seguir em frente e esquecer isso de uma vez por todas, mas às vezes, ou quase sempre, eu me pergunto o que seria se tivesse lhe falado aquele dia que eu amava teus maneirismos, teu estilo que fazia referência aos seus ídolos britânicos sem ser pretensioso, sua voz, seus gestos, sua insanidade que era tão parecida com a minha. Te dizer que sua totalidade fez eu te amar, apesar de tantos defeitos.

Escrevo esse texto em uma das muitas noites de insônia que me trouxeram as memórias falhadas para te dizer que eu não tenho nenhum orgulho de sentir isso, mas é o que sinto. E não é algo que posso esquecer facilmente, infelizmente. Ou felizmente? Eu não sei. Só sei que queria nunca ter te contado todas aquelas coisas, queria que você desse um último suspiro e se afundasse dentro de mim, como o Titanic e ficasse no fundo de meu mar interno, esquecido e intocado até eu saber lidar com tudo isso de forma racional. Você nunca me deu nada que eu merecia. Você nunca me dará nada que eu anseio, apesar da facilidade em destilar jogos que perturbam a minha mente já adoecida. 
A única coisa que eu posso colocar em prática é transcrever os desejos que adoecem no meu âmago até, finalmente, deixar pra lá o que nunca foi e nunca será. 

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