Ana is on my mind

O gosto da pólvora da sua saliva, de vez em quando, volta a ponta da minha língua como um lembrete do que me foi tirado, do que foi perdido. Lembro-me do gosto de sua agridoce alma e era muito para se abrir mão, pois éramos dois furacões se encontrando e eu pude ver o olho do furacão, pude entrar em contato e segurar você pelas mãos e dentro do nosso desastre natural, tudo era calmo, tudo era certo. Como números pares.
Quando os flashes de memória vem tarde da noite para magoar os cortes que ainda estão cicatrizando, como uma verdadeira masoquista, coloco as músicas que conectei com a sua partida. Forget Her, do Jeff Buckley e If you see her, say hello do Dylan. Essas músicas machucam mais do Say Yes do Elliott Smith, que eu te cantei naquela manhã que estávamos subindo a Rua Augusta.
Faz um bom tempo que meu coração não vomita palavras referentes a você. É só que esse mês faz um ano daquele dia que o mar interior não se conteve e começou a vazar freneticamente em meio a meia dúzia de pessoas muito entorpecidas para se darem conta de que um coração quebrava em milhares de pedaços.
No meu inconsciente eu bem que sabia que ia acabar, mas nunca esperei que dessa forma. O grande problema é que nós éramos muito iguais, e exatamente por isso não deu certo. Antes de acabar eu já estava entediada. Entediada com a estabilidade. Entendiada com a paz de espírito que ficar com você trazia. Era muito certo, era fácil e me fazia bem. Não tinha caos, não tinha lágrimas, não tinha obsessão... não tinha emoção. Curiosamente o que deveria me fazer querer ficar. Mas eu fiquei, eu fiquei porque não queria mais ser assim, e aí foi você que terminou tudo isso. A vida tem dessas coisas irônicas.
Quando penso naquele tempo, só lembro da dor que me causou porque eu não queria abrir mão daquela normalidade, daquela paz de espírito. Abrir mão de uma pessoa que eu sentia realmente gostar de mim. No dia da ruptura brusca naquele espaço escuro e com cheiro de madeira velha e apodrecida, você me disse que eu te amava demais. Você estava tão enganada. Na verdade, eu amava o que você me fazia sentir. Eu nunca tive um sentimento muito forte por você daqueles que saem fagulhas. Eu só queria ser aquela pessoa que te dava conselhos, cuidava de você e em troca você me fazia sentir uma pessoa melhor. Era um carinho muito forte, mas não era amor. Eu realmente gostava de você, mas não a amava. Ou era? Nem sei mais o que é amor já que as minhas certezas são tão distorcidas.
Antes do fatídico fim, já havia perdido toda a fosforescência e era egoísmo meu não compartilhar isso com você. Mas você provavelmente sentiu também. Naquele dia que o lábios ficaram petrificados e não corresponderam com a intensidade que nem eu e nem você estava esperando. Naquele dia foi o nosso último dia. Naquele dia você vomitou na minha jaqueta e eu cuidei de você a noite toda.
Na vez que nos vimos, de fato antes do término, já estava acabado, mas eu estava muito entorpecida com vodca para perceber. Eu só queria algo em que me agarrar na minha vida que estava tão de cabeça para baixo depois de uma notícia que deveria ter me deixado alegre.
Naquela época, o meu coração já estava criando fios que me levavam a outro lugar tão perto de você fisicamente, mas tão longe em sua subjetividade.. A própria vida estava me levando para outro lugar que eu não conhecia e eu nem sabia quem eu era mais.
Mas o carinho sempre continuou, e a dor daquele tiro em uma noite de Março ainda lateja nas madrugadas em que eu lembro dos meus desamores.
O que me fez ficar e ver o acidente da desintegração foi o sentimento de, finalmente,  ter algo estável. Sentir-me, pela primeira vez na minha caótica vida, um pouco em paz, eu pensava. Mas hoje percebo que o que me fez me agarrar nisso foi o meu egoísmo. E hoje eu te peço desculpas por ter achado que só você foi egoísta. O tempo nos faz ver as coisas com mais clareza, e hoje, depois de um ano, eu lembro de todos os momentos bons que você me proporcionou. Hoje eu estou pronta para deixar você ir de vez. Hoje não há magoa, não há ressentimento. Só a certeza de que quero que seja feliz na sua vida longe de mim. A magoa pode voltar quando eu lembrar das lágrimas e de todo aquele sangue, mas só hoje eu agradeço por você ter me ensinado inconscientemente a ser alguém melhor e que eu vou conseguir ter paz de espírito um dia.
Hoje percebo que mesmo que você tivesse me falado o que estava acontecendo, não ia doer menos. E, aliás, quem foi embora para outra cidade fui eu. Você só foi você, você não queria ficar sozinha e eu entendo muito isso para te julgar, mas eu te julguei, eu te julguei por ter agido da mesma forma que eu agiria. Hoje eu estou pronta para tirar a culpa das suas costas e colocar nas circunstâncias. Hoje, só hoje. Até que um dia isso seja verdade absoluta e não lateje mais. Você me fez muito mal, de fato, e um dia eu estarei pronta para te perdoar, mas eu caminho como um bebê. Um bebê triste e errático, como disse Kurt. Hoje eu só estou escrevendo essas palavras porque é a minha verdade. Amanhã eu nem sei mais.

Eu estou pronta para deixar você ir, Ana.
De fato, adeus. Ou até o próxima prosa.

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