Sonda

Já era madrugada do dia 27 de dezembro quando peguei a necessaire que estavam os remédios, que já estavam devidamente tirados da embalagem. Encarei todos aqueles comprimidos no fundo da necessaire sentindo um imenso vazio interior. Com uma certa frieza engoli todos os 50 comprimidos enquanto ouvia músicas que remetiam a suicídio. Eu sou a porra de um clichê, assumo. Tinha passado o dia inteiro ouvindo Mad World do Tears for Fears. Escrevi algumas linhas de despedida. A despedida mais sem graça que alguém poderia escrever.

''Eu não quero ir, eu não quero ir, nem que eu tenha que me matar'' esse foi o pensamento que eu estava tendo há alguns dias antes de tomar a coragem que faltava. Eu tinha um medo excruciante de dizer ''não'', de decepcionar as pessoas. Vergonha. Vergonha de assumir que eu não era capaz, quando todos me diziam o quanto eu tinha sorte. Não, eu preferia morrer a dizer não. Eu nunca quis mudar de cidade, não 100%, pelo o menos. No começo houve o entusiasmo de conhecer um lugar novo porque eu já tinha me esgotado da cidade que eu vivia, tudo parecia extremamente maçante, nada tinha muita emoção. Mas quando eu fui foi a coisa mais pavorosa do mundo. Não só a solidão, o processo de adaptação, mas o não se sentir importante pra ninguém... Ser um nada. Tudo que eu fazia era como um eco do que eu já tinha feito. Eu tinha perdido minha luz interior. Era um palco com as luzes apagadas sem ninguém para bater palma. Um monólogo interminável. A espontaneidade havia se esvaído, tudo parecia mecânico mesmo que impulsivo. E isso me apavorava tanto que eu contei os dias pra voltar. Raramente eu chorava, parecia que eu estava seca e o que permanecia era a agonia e a ansiedade. Também tinha... ele. Eu não aguentaria mais viver sem ouvir a voz dele. E a conversa que nós tinhamos tido quando eu voltei em vez de me deixar mais aliviada, me deu mais vontade de cortar o fio. É claro que a culpa não era dele por eu querer me matar. A culpa não era minha, tampouco.

Passado algum tempo, todo o meu corpo começou a tremer. Foi quando eu comecei a chorar. Chorava convulsivamente. Acabei acordando minha mãe e ela me perguntou o que tinha acontecido e eu contei, contei que tinha tomado todas as cartelas de risperidona que eu tinha. O que eu lembro depois disso é meu padrasto gritando comigo dentro do carro, me falando que eu não tinha vergonha na cara e várias outras coisas até chegar no hospital. Depois do procedimento padrão, dos comentários sobre a razão de eu ter feito isso e toda aquela coisa chata que eu não estava dando importância. Aliás, eu não iria dizer o motivo de eu querer por fim na minha vida na frente de uma pessoa que eu nem conheço. Muito sóbria pra isso, muito apática.
A hora mais difícil foi colocar aquela porra daquela sonda. Eu tentei me desvencilhar. Nem minha mãe e o médico conseguiram me segurar. E eu dizia: ''Por que eu não posso colocar o dedo na goela e vomitar? Eu não quero colocar isso em mim''. Depois de muita relutância, acabei cedendo. Nada como a sensação de ter algo sendo enfiado pelo seu nariz. Pra minha sorte, ah, como eu sou sortuda, parecia que não estava querendo sair nada e por isso eu ia ter que ficar até o médico decidir que já tinha saído tudo do meu organismo. Um agulha do tamanho do mundo foi introduzida na minha mão. E depois foi coloca soro, troca soro, e ad infinitum. Parecia que as horas não passavam e eu fiquei lá, naquela cama de lençóis brancos olhando pro teto e pensando em como eu deveria ter me jogado de uma ponte ou de um prédio, seria bem mais eficaz. Tão inútil que não conseguia se matar, e essa não tinha sido a primeira vez. Cortar a carótida com uma faca? Uma arma? Onde diabos eu vou arrumar uma arma pra estourar os meus miolos? Que inferno.
Todos os remédios pareciam começar, enfim, a fazer efeito pois eu não conseguia nem manter meu olho aberto. Mas aquele cano entalado na garganta me dava a consciência de onde eu estava, o que eu tinha feito. Eu preferia ter dormido do que ficar suplicando pra uma coisa invisível que aquilo acabasse logo. Se a intenção daquilo era fazer me arrepender, bom, foi bem sucedida.
Nessas 12 horas de tormento senti que estava pagando por querer me matar. É bem irônico você querer se matar e se encontrar numa cama com uma sonda sugando tudo de você. E sugou mesmo, de uma forma metafórica, toda a minha vontade. Sugou tudo e eu me sentia uma casca oca.
12 horas de tormento deitada numa cama no meio de um hospital. O pior é que minha mãe dizia alto o que tinha acontecido. Ninguém precisava saber dessa porra, ninguém precisava saber que eu era louca e que eu tinha sido diagnosticada com TPB.
Vi uma menina passando na cama com o pulso cortado. Não consegui me compadecer. Só pensei: ''Que corte pequeno, pelo amor. Eu já fiz piores e nunca vim parar no hospital''.
Estava começando a ficar impaciente, por que uma lavagem precisava demorar tanto? Eu juro que comecei a contar até 300, e depois começava de novo, e de novo, e de novo... Aquilo simplesmente não acabava. Quanto mais agoniada eu ficava, mais as horas demoravam a passar. Sempre era a expectativa quando o médico entrava, só pra depois ser decepcionada e voltar a contar. 1, suspiro, 2, suspiro...

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